As vezes eu gosto de reclamar da minha solidão, mas só as vezes. As vezes ela se torna minha grande companheira, a grande testemunha da minha vida, a senhora que me assiste afundar na leveza dos meus pensamentos.
É triste me ver tão monja, tão celibatária, tão reclusa. Um ser tão ativo e tão grandioso, capaz dos saltos mais mortais em direção aos sonhos mais escabrosos, agora retido em constituições, raciocínio lógico, direito administrativo. Não há mais elucubrações, não há mais criação, só há o silencio dos meus 100 anos retidos em 23. Me sinto velha, desprovida de capacidade de viver algo novo. Me sinto despreparada, como uma garota que pospõe a perda da virgindade para quando estiver preparada. Me sinto exatamente assim, despreparada para o mundo.
E no entanto me sinto tão confortável na minha própria pele, somente eu, somente nós duas, me vejo me amando tanto, mas tanto, que nenhuma companhia é boa o bastante. Ninguém parece bom o bastante. Que grande virada da mesa, antes achava que eu nunca ia achar ninguém, agora não acho que eu vá achar alguém o bastante para mim. Sou tantas, tão complexa. Sou sexo, sou paixão, sou afeto, sou inteligência, sou discussão, sou briga, sou silencio, sou meditação, sou sozinha. Agora sei que ser sozinha não é o mesmo que estar sozinha. É ser tão original ou errada ou complexa ou perspicaz. Ao fim nem sei se sou um erro bom, passível de vinculação, podendo ser aproveitado, ou erro de acerto, como aquelas curvas erradas quando estamos perdidos mas que nos levam ao local certo. Sendo certo ou errado, sou complexa, de um tanto, que ninguém vai ser capaz de corresponder a isso, agora sei, deveria ter ficado com ele, era minha pequena migalha, mas era minha. Era tão pouco, tão estranho, tão simples que a minha matemática conseguiu resolvê-lo tão fácil que eu não me entreti. Era um sexo que partia de mim, era algo que se eu tivesse plantado, regado, talvez pudesse crescer para uma mísera flor. E morreria. Foi isso que eu previ, e a matei antes mesmo de brotar.
Agora ficou eu, amando a mim, gostando de mim, sendo minha alma gêmea e ainda assim, me sentindo triste por não estar triste. Saudade das antigas melaninas que me preenchiam por dentro e por fora. Agora são albinas. sem cor.
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