Ontem sonhei com meu poeta. Aquele que senta sob a luz fraca de uma vela e cuja inspiração transborda as folhas do papel. Nunca fui poeta, minhas linhas não se rimam, mesmo que eu tente. Sou feita de um material mais duro como as capas dos livros, que me tentam á lê-los. Mas ainda sim sonhei com um poeta.
Meu poeta não tinha cabelos loiros, não era etéreo, era real, seus cabelos eram pretos e longos, e cobriam apenas seus ombros. Os olhos do meu poeta não eram docemente azuis ou alegremente verdes, porque o poeta deve ser alegre mas também deve sofrer. Os olhos dele eram negros como a noite, companheiros dos amantes e dos sozinhos. Seu sorriso é mágico, embora viva escondido. Sua pele é branca, mas nem tão branca assim. Ele é queimado dos dias de amor ao sol, e fervido em noites de amor à luz da lua. Sua pele é adocicada de afagos e carinhos e perfumada com as suas lágrimas. Meu poeta sabe amar, embora nunca me diga. Ele sabe olhar dentro dos meus olhos e roubar o meu sorriso. Sabe gravar em minha pele suas letras, sabe rodopiar com meu coração. Meu poeta não é jovem e nem é velho, apenas na idade certa para me compreender e na certa para me acompanhar.
Ontem era noite, e ele se sentava à beira-mar e me escrevia. Se descrevia entre linhas negras, borradas mas compreensíveis, assim como o coração dele. Ele me dizia que o amor nem sempre é fácil, me dizia que eu deveria esperar para ele viesse me buscar. Me dizia que o mar é grande e que seu medo ainda maior. Que ele ainda era longe mas queria ser perto. Me dizia "coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar" e me dizia que mesmo diferentes, nossas almas é que se assemelhavam.
Ontem a noite ouvi meu poeta sussurrar ao vento da noite que me trouxesse seu beijo, que jamais o esquecesse sem mesmo o ter conhecido, e me dizia que um dia iríamos nos encontrar.
Ontem, acordei. Vi me sozinha à sussurrar entre ás lágrimas que me ocorriam, que uma vez que o tivesse conhecido, jamais o deixaria de amar. Então vi que já fizera essa promessa uma vez na vida. E vi que ainda a cumpria. Pedi então ao vento que me levasse desse mundo, que me deixasse ali, que me encontrasse com meu poeta. Então o vento sumiu e eu fiquei sozinha ao som da chuva, sonhando com meu poeta.
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