Embora eu esteja tentando bravamente me atentar à realidade, ao que resta, à um fim, a frieza da espada das ilusões, se mostra guardada embaixo de meu tecido infeccionado, morto, moribundo. É difícil se achar passado, se considerar um momento guardado nas dobras do tempo. Mais ainda é difícil tentar eliminar a lembrança que retemos nas dobras cerebrais, como eu venho tentando retirar vagarosamente. Sem sucesso. Me influi uma vontade de penetrar com minha adaga à força, retirar pedaços inteiros de loucura, ilusão, sangue, carne, ossos e eu. Como se retirando esse tecido canceroso, eu pudesse de alguma forma, retirar de mim a pobre, ridícula e virulenta esperança que tem comido por dentro todos meus sentidos saudáveis.
Chega de sonhos bons, chega de ilusões avarentas, é negro o céu que vejo e negras são as previsões que ensejo. Uma tempestade negra como a morte aborta o céu de trevas, escuridão, demônios e perdição. O futuro se tornou pegajoso, estapafúrdio, inexato.
Das trevas, eu devo agora me apoderar, vestí-las como meu manto mortuário, congelar o sangue de minhas veias de modo que somente circule um odor purulento, que emane de minhas narinas, nauseabundo, impregnando todo o ambiente de cadáver e sofrimento. Devo me tornar morte, morrer por dentro, para então das cinzas funerárias, eu renasça um alguém novo, com penas negras brilhantes que se estiquem de meus ombros como um corvo, de uma beleza imortal, hipnótica e assustadora.
Agora serão eles que me temerão. Serão eles que sentirão o medo penetrar pela pele, irradiando pelos pêlos eriçados.
Eles me temerão. E eu me esquecerei deles.
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